O que são os IRSNs?

Duloxetina
Diagrama do Mecanismo de AçãoOs inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSNs) são antidepressivos com efeito analgésico em algumas condições de dor crônica. Aumentam a disponibilidade de serotonina e de noradrenalina nas vias descendentes que modulam o processamento dos sinais nociceptivos na medula espinal e no encéfalo.
Em comparação com os antidepressivos tricíclicos, os IRSNs costumam ter menor carga anticolinérgica, menos sedação e perfil de segurança mais favorável em muitos pacientes. Isso não significa que sejam medicamentos “leves” ou isentos de risco: náusea, alterações de sono, disfunção sexual, elevação de pressão arterial, interações, descontinuação e contraindicações continuam clinicamente relevantes.
A duloxetina costuma ser escolhida quando dor crônica, sintomas de humor e sensibilização central aparecem no mesmo paciente.
A duloxetina tem a base mais sólida da classe para dor musculoesquelética crônica, fibromialgia e neuropatia periférica diabética. A venlafaxina e a desvenlafaxina podem ser úteis em contextos específicos, mas em geral não são as escolhas mais fortes quando o alvo principal é dor musculoesquelética isolada. Indicações em bula e registro sanitário no Brasil — pela ANVISA — devem ser confirmados conforme produto e data de prescrição.
Mecanismo de ação
Os IRSNs reforçam neurotransmissores envolvidos nas vias descendentes de modulação da dor. As diferenças entre duloxetina, venlafaxina e desvenlafaxina importam: eles não são intercambiáveis em todos os pacientes.

Mecanismo de Ação
DiagramaInibição da recaptação de serotonina
Os IRSNs reduzem a recaptação de serotonina ao bloquear o transportador SERT no neurônio pré-sináptico. O aumento da disponibilidade de serotonina no encéfalo e na medula espinal participa da modulação descendente da dor e também influencia humor, sono e ansiedade. Esse efeito ajuda a explicar parte da resposta clínica em alguns pacientes, mas não responde sozinho pela analgesia observada na prática.
Inibição da recaptação de noradrenalina
Os IRSNs também bloqueiam o transportador NET, aumentando a disponibilidade de noradrenalina nas vias descendentes inibitórias originadas no tronco encefálico. A atividade noradrenérgica nos receptores alfa-2 do corno dorsal da medula é considerada um componente especialmente relevante da analgesia. Esse mecanismo ajuda a entender por que IRSNs com ação noradrenérgica clinicamente útil tendem a se sair melhor em dor do que antidepressivos predominantemente serotoninérgicos.
Particularidades da duloxetina
A duloxetina costuma ser apresentada como o IRSN com a melhor base de evidência direta em dor musculoesquelética crônica, fibromialgia e neuropatia periférica diabética. Sua ação dupla sobre serotonina e noradrenalina vem acompanhada de baixa afinidade por receptores muscarínicos, histaminérgicos e alfa-1 adrenérgicos — o que ajuda a explicar por que o perfil de efeitos adversos costuma ser mais limpo do que o dos antidepressivos tricíclicos.
Particularidades da venlafaxina
A venlafaxina tem farmacologia dose-dependente. Em doses mais baixas, predomina o efeito serotoninérgico; o componente noradrenérgico só ganha relevância clínica em doses mais altas. Por isso, venlafaxina em dose baixa tende a oferecer um racional analgésico menos claro, e seu uso para dor exige titulação cuidadosa, monitoramento da pressão arterial e atenção à síndrome de descontinuação.
Modulação da sensibilização central
Em quadros de dor persistente, o aporte nociceptivo contínuo, somado a sono ruim, estresse, comorbidades de humor e fatores contextuais, pode contribuir para sensibilização central e perda de inibição descendente. Os IRSNs fazem mais sentido quando o quadro inclui dor difusa, hipersensibilidade, alteração do sono, sintomas depressivos ou ansiosos ou sobreposição com fibromialgia. São menos convincentes como solução isolada para uma dor estritamente local e mecânica.
Comparação com antidepressivos tricíclicos
Os antidepressivos tricíclicos têm farmacologia mais ampla e ainda são úteis em alguns fenótipos de dor, sobretudo quando insônia ou componente neuropático predominam. Os IRSNs costumam ser preferidos quando se busca menor carga anticolinérgica, menos sedação e perfil cardíaco mais favorável. A escolha depende de comorbidades, idade, interações, tolerabilidade e do objetivo principal do tratamento.
Perfis individuais dos medicamentos
Duloxetina (Cymbalta e genéricos no Brasil)
IRSN com melhor evidência direta em dor crônicaAção sobre serotonina e noradrenalina
Registros e indicações
Evidências principais
- É o IRSN com melhor base de ensaios diretos em dor musculoesquelética crônica
- Há suporte em lombalgia crônica, dor associada à osteoartrite, fibromialgia e neuropatia periférica diabética
- É a opção mais defensável quando dor crônica coexiste com depressão, ansiedade ou sensibilização central
- Para dor miofascial isolada, a evidência é indireta e deve ser apresentada como tal ao paciente
- No SUS, não consta na RENAME; em planos de saúde, a cobertura ambulatorial varia conforme o convênio
Efeitos adversos comuns
- Náusea, especialmente nas primeiras semanas
- Boca seca, sonolência, constipação ou tontura
- Insônia ou fadiga em parte dos pacientes
- Redução do apetite
- Disfunção sexual
- Sintomas de descontinuação (tontura, “choquinhos elétricos”, sintomas gripais) se a interrupção for abrupta
Metabolismo e interações
Metabolismo hepático principalmente por CYP1A2 e CYP2D6. Inibidores potentes de CYP1A2, como fluvoxamina e ciprofloxacino, podem aumentar a exposição. Interações via CYP2D6 também podem ser relevantes em polifarmácia. A farmacêutica clínica costuma ajudar nessa revisão.
Alertas e precauções
- Evitar ou usar com cautela em hepatopatia significativa ou consumo alcoólico importante
- Lesão hepática clinicamente relevante é rara, porém possível
- Risco de SIADH e hiponatremia, sobretudo em idosos
- Risco aumentado de sangramento quando associada a anticoagulantes, antiagregantes ou AINEs
- Atenção ao alerta de classe sobre piora de humor e ideação suicida em jovens — em emergência, ligue 192 (SAMU); em crise emocional, 188 (CVV)
- Contraindicada com IMAOs; respeitar o intervalo de segurança previsto em bula
- Descontinuação sempre gradual, supervisionada pelo médico
Venlafaxina XR
Ação noradrenérgica dose-dependentePredomínio serotoninérgico em dose baixa; ação dupla mais clara em dose alta
Registros e indicações
Evidências principais
- A plausibilidade analgésica aumenta nas faixas em que a ação noradrenérgica é mais relevante
- Há algum suporte em condições neuropáticas e em alguns contextos de cefaleia
- É menos estudada diretamente em dor musculoesquelética crônica do que a duloxetina
- Pode ser razoável quando há indicação psiquiátrica concomitante e a duloxetina não é adequada
Efeitos adversos comuns
- Náusea, boca seca, tontura ou insônia
- Elevação da pressão arterial, sobretudo em doses mais altas
- Sudorese, inclusive noturna
- Sintomas de descontinuação que tendem a ser mais marcantes do que com duloxetina
- Disfunção sexual
Metabolismo e interações
Metabolismo hepático principalmente por CYP2D6, formando o metabólito ativo O-desmetilvenlafaxina, com participação secundária do CYP3A4. Fenótipo CYP2D6, inibidores e interações podem alterar tolerabilidade e resposta.
Alertas e precauções
- Aferir pressão arterial e frequência cardíaca antes de iniciar e durante a titulação
- Nunca suspender de forma abrupta — a síndrome de descontinuação pode ser intensa
- Cautela em hipertensão não controlada, arritmias ou risco cardiovascular elevado
- Contraindicada com IMAOs; respeitar o intervalo de segurança em bula
Desvenlafaxina
Menor dependência de CYP2D6Ação sobre serotonina e noradrenalina
Registros e indicações
Evidências principais
- Menos estudada diretamente em dor do que a duloxetina
- Pode ser escolhida por simplicidade farmacocinética, e não por evidência analgésica superior
- Pode ser útil quando interações via CYP2D6 dificultam o uso de venlafaxina
- Não deve ser apresentada como opção forte para dor miofascial isolada
Efeitos adversos comuns
- Náusea, tontura, insônia ou sudorese
- Possível elevação da pressão arterial
- Constipação ou boca seca
- Disfunção sexual
- Sintomas de descontinuação podem ocorrer
Metabolismo e interações
Metabolismo principalmente por conjugação, com menor dependência de CYP2D6. É uma opção mais simples em alguns cenários de polifarmácia, embora interações farmacodinâmicas e risco serotoninérgico continuem relevantes.
Alertas e precauções
- Monitorar pressão arterial
- Fazer desmame gradual ao interromper
- Contraindicada com IMAOs; respeitar intervalo de segurança em bula
- Reservar para contextos em que o perfil farmacocinético ou a indicação psiquiátrica justifiquem a escolha
Evidência clínica em dor miofascial
A evidência em dor miofascial isolada é limitada. A justificativa clínica é mais forte quando a dor miofascial faz parte de um quadro maior, com dor difusa, sensibilização central, sono ruim, fibromialgia, ansiedade ou depressão.
Duloxetina em lombalgia crônica
Duloxetina em osteoartrite
Duloxetina em fibromialgia
Revisões sistemáticas em dor crônica
Extrapolação para dor miofascial
Resposta variável
Semanas
Sensibilização central
Efeitos adversos e manejo
Os IRSNs podem ser mais toleráveis do que os antidepressivos tricíclicos, mas continuam exigindo orientação e monitoramento. Náusea, tontura, sudorese, alterações de sono, disfunção sexual, pressão arterial e descontinuação devem ser discutidos antes de iniciar o tratamento.
IRSNs vs. ADTs vs. gabapentinoides

IRSNs vs. ADTs vs. Gabapentinoides
Tabela ComparativaEficácia em dor musculoesquelética
Peso dos efeitos adversos
Custo e disponibilidade no Brasil
Evidência em dor miofascial isolada
Melhor candidato
Interações medicamentosas
Segurança em superdosagem
Raciocínio clínico e acompanhamento
Seleção inicial
Titulação
Monitoramento
Avaliação de resposta
Resposta insuficiente
Duração e descontinuação
Referência rápida: quando cada IRSN tende a fazer mais sentido
A duloxetina tende a fazer mais sentido se...
- O objetivo é a opção com melhor evidência em dor musculoesquelética crônica
- Há dor crônica associada a depressão ou ansiedade
- Há sinais de sensibilização central
- Há fibromialgia ou sobreposição fibromialgia-miofascial
- A dose única diária é importante para a adesão
Milnaciprano (não disponível no Brasil) — quando seria considerado em outros países...
- Milnaciprano não tem registro vigente na ANVISA, portanto não é uma opção prática no Brasil
- Em países onde está disponível, costuma ser considerado quando a duloxetina não é tolerada ou suficiente
- Tem perfil mais favorável quando há predomínio de fibromialgia
- Pode ser preferido por ter eliminação predominantemente renal, reduzindo o risco de interações via CYP
A venlafaxina pode fazer sentido se...
- Existe indicação psiquiátrica concomitante
- O paciente já usa venlafaxina com benefício
- O médico aceita titulação até dose com ação noradrenérgica mais clara
- A pressão arterial pode ser monitorada de forma confiável
A desvenlafaxina pode fazer sentido se...
- Interações via CYP2D6 são uma preocupação relevante
- O alvo principal é depressão, com dor concomitante
- Um perfil farmacocinético mais simples é prioridade
- A duloxetina ou a venlafaxina são menos adequadas por tolerabilidade ou interações
A duloxetina é o IRSN com a melhor sustentação prática quando o alvo é dor musculoesquelética crônica, fibromialgia ou neuropatia periférica diabética.
O efeito analgésico dos IRSNs não depende apenas da melhora do humor; a modulação descendente da dor é parte importante do racional.
A atividade noradrenérgica parece ter papel relevante na analgesia, o que ajuda a explicar por que venlafaxina em dose baixa se comporta de forma diferente da venlafaxina em dose mais alta.
Os IRSNs costumam ser mais úteis quando há dor difusa, sensibilização central, alteração de sono, depressão, ansiedade ou sobreposição com fibromialgia.
A evidência em dor miofascial isolada é indireta. Não se deve apresentar IRSN como tratamento específico ou “curativo” para pontos-gatilho.
A venlafaxina exige atenção especial à pressão arterial e à síndrome de descontinuação.
A desvenlafaxina pode ter espaço por perfil farmacocinético em alguns pacientes, mas não tem a mesma base de evidência da duloxetina em dor.
A avaliação de resposta deve incluir função, sono, tolerabilidade e melhora global, e não apenas a escala numérica de dor.
A descontinuação deve ser sempre gradual e planejada, sobretudo com venlafaxina e duloxetina.
Os IRSNs funcionam melhor como parte de um plano multimodal que também trate sono, movimento, carga mecânica, ergonomia, fatores psicológicos e comorbidades.
Alerta: descontinuação de IRSN